O ano de 2025 foi histórico na relação entre o Brasil e suas Forças Armadas, com a inédita condenação da cúpula militar pela tentativa de trama golpista para manter Jair Bolsonaro no poder, mesmo derrotado no voto. Para entender o quanto é possível aproveitar a deixa e esperar mudanças reais de nossa caserna, o Brasil de Fato conversou com analista militar Ana Penido.
Na primeira parte da conversa, ela explicou que dentre os fardados, pegou muito mais mal o fato de alguns terem traido colegas – como fez o general e ex-ministro da Defesa e candidato derrotado a vice de Bolsonaro em 22, Walter Braga Netto, quando pediu ataques contra o então comandante do Exército, Marco Antonio Freire, por sua recusa em participar do golpe – do que terem atentado contra a democracia.
Penido também explicou o efeito que o flerte com o poder durante os anos Bolsonaro causou em nossos militares e as possibilidades de eles adotarem posições mais democráticas.
Nesta segunda parte, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) discorre sobre a eficiência de nosso aparato defensivo e, em especial, sobre a necessidade que temos, enquanto país, de definirmos qual a função que desejamos que as Forças Armadas ocupem. “O Exército vai se conformar em ser uma agência de formação profissional para futuros quadros da construção civil brasileira, um Pronatec esquisito?”, questiona.
Leia abaixo a entrevista:
Brasil de Fato: Quanto do orçamento das Forças Armadas é custeio de salários e pensões e quanto sobra para investimentos?
Ana Penido: Varia um pouco, mas, em geral, a média no Brasil é 80% mais ou menos dos gastos com pessoal, englobando tanto pagamento de quem está na ativa, quanto de quem está na reserva. Os outros 20% normalmente ficam para investimento.
A média internacional é usar cerca de 50% do orçamento para gastos com pessoal, 30% para compra de equipamento e os 20% restantes são investidos em ciência e tecnologia. Em laboratórios são inventadas novas possibilidades em termos de equipamentos.
Não é o nosso caso. A maior parte desses 20% que sobra são para compra. A gente muitas vezes compra equipamento usado, como os 11 helicópteros falcão negro que adquirimos recentemente dos EUA, ou blindados.
É verdade a crítica de que, se compararmos com outros países, temos proporcionalmente mais oficiais do que soldados?
Essa comparação ela não é pertinente, porque o formato das forças armadas depende da estratégia que aquela força armada adota. Temos mais generais proporcionalmente a praças, quando compramos com os Estados Unidos, que têm um efetivo muito maior, mas estão em guerra, possuem outra conformação bélica.
O número de recrutas é bem mais alto. Eles têm uma formação muito mais profissional e essas pessoas podem acabar prestando serviços a empresas terceirizadas, em outros países. Já a Venezuela tem outro desenho, lá os generais vão comandar regiões muito menores geograficamente do que as nossas e do ponto de vista do efetivo profissional, mas por outro lado que incorpora milícia. Eles também não têm essa divisão que temos, entre Exército, Marinha e Aeronáutica, é uma força só.
Essas comparações são pouco rigorosas, não fazem muito sentido, mas geram clique para jornais. O que importa mesmo é qual o desenho de Defesa que um país adota. Dependendo desse desenho, vamos ter uma proporção maior ou menor de oficiais. Mas a maior parte dos estudo indica que o problema do nosso desenho não está embaixo (soldados) ou em cima (generais), mas no meio, em que há um excesso ali, de tenentes, por exemplo.
Nosso desenho de Defesa tem muitos problemas, como por exemplo, o recrutamento obrigatório. Ou a possibilidade de que os soldados sejam usados para recuperação de obras, como já passou na Câmara e está no Senado.
Não faz sentido um país que tenha política de Defesa real tornar o Exército uma empreiteira. Fazer aquele menino que passa um ano servindo receber formação profissional em construção civil. Quando ouvi essa ideia, pensei: ‘Então o exército vai ser uma agência de formação profissional pros futuros quadros da construção civil brasileira, um Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) esquisito para as obras que estavam abandonadas acima de R$ 15 milhões, tudo sem licitação.
Quais as maiores deficiências que temos no nosso desenho de Defesa?
A primeira coisa de um desenho de defesa é a gente pensar qual que seria a nossa postura no mundo. A gente se propõe atuar fora do território ou não? O desenho de defesa brasileiro é absolutamente defensivo, só atacamos se formos atacados, é uma questão de capacidade de resposta.
Nesse aspecto uma questão é que nenhum de nossos vizinhos teria capacidade de fazer uma agressão mais profunda em nosso território. Nem Venezuela, Colômbia ou Argentina têm capacidade em efetivo e armamento para isso, não são ameaça existencial. Portanto, teíamos que pensar em uma capacidade de resposta para países que não são vizinhos territoriais.
Países mais fortes que nós. Claro que todos pensariam nos EUA, mas não só. Eventualmente teríamos que pensar na possibilidade de conflito com países europeus, China, Índia, ameaças que não necessariamente incluiriam incursões por terra, mas pelo ar e pelo mar, além claro, cibernética. Todos os nossos cabos submarinos de internet estão sob controle de outros países. Apenas um cabo submarino foi construção nossa, ligado à África.
Pensar em nossas vulnerabilidades militares de capacidade de resposta. Não é apenas comprar caças F-39E Gripen, que são equipamentos fantásticos, mas sim mantê-los operacionais, coisa que passa pelo combustível, ter capacidade rápida de reposição de peças. E essa nossa capacidade é baixa.
Há alguma capacidade de transferência tecnológica, mas parte dos equipamentos segue não sendo nossos, mas dos Estados Unidos. Então, por exemplo, na hipótese de conflito com os Estados Unidos, não faz sentido você pensar em usar um armamento que tem componentes que vêm dos EUA.
Temos também problemas de defesa antiaérea, precisaríamos ter mais capacidade de lançamento de mísseis. Lançadores a longo e a médio e longo alcance são problema para o Brasil e por isso, para combater qualquer ameaça que venha do mar ou do ar, teríamos que chegar bem pertinho.
Faz sentido termos submarino nuclear?
Pessoalmente acho um dinheiro mau gasto. A vantagem de um submarino impulsionado por energia nuclear é que permite ficar mais tempo submerso. Isso é uma grande vantagem porque você pode ficar lá por um tempão e ninguém te vê.
Só que o tempo que gastamos para construir um submarino nuclear aqui na periferia, como é o caso do Brasil. é imenso. É um projeto dos anos 1970 e a previsão para sua finalização é 2035. Com esse mesmo recurso, poderíamos ter um número de fragatas, coisa que temos capacidade de construir. Nossa indústria naval tem uma ótima capacidade, inclusive de construir submarinos convencionais.
Eu acho legal ter submarino nuclear, mas o custo é muito alto para um país que não tem recurso. Como esse dinheiro dá pra fazer outras coisas. O trunfo do Irã no conflito desse ano com Israel foi seu grande número de drones.
A conta é: podemos ter várias unidades de um equipamento que custa 100 mil, mas um número bem menor de equipamentos que custam cinco milhões. A questão do submarino nuclear toca na necessidade de termos um desenho de Defesa mais barato e compatível com nosso território.
Meu ponto de vista é que é melhor ter equipamentos que, mesmo não sendo de tecnologia de ponta, consigamos garantir sua sustentabilidade. Um exemplo negativo foi a compra do porta-aviões São Paulo, usado pela Marinha entre 2000 e 2014, mas que sempre deu problema, era cheio de amianto e que acabou afundado porque não conseguimos vender nem para sucata.