As ruas do centro de Porto Alegre voltaram a ser tomadas por bandeiras, palavras de ordem e idiomas diversos em uma mobilização que remete à trajetória internacionalista da cidade. A capital gaúcha sedia a 1ª Conferência Internacional Antifascista em um momento simbólico: o ano em que se celebram os 25 anos do Fórum Social Mundial.
A conferência foi aberta pela Marcha Antifascista, no final da tarde de quinta-feira (26), com milhares de pessoas percorrendo o centro histórico da cidade. O encontro reuniu lideranças políticas, representantes de movimentos sociais e delegações de diferentes países, articulando respostas ao avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.

Para a secretária de comunicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE), Ieda Leal, a marcha expressa a continuidade das lutas sociais em escala global. “É dizer para o mundo que nós não vamos parar, que a democracia vai ser defendida e que nós precisamos restaurar a felicidade no mundo”, afirmou.

Memória política e articulação internacional
A realização do encontro em Porto Alegre dialoga com sua trajetória como espaço de articulação global. Ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra definiu o fascismo como expressão de um modelo excludente. “O fascismo é uma fase violenta do capitalismo”, afirmou, ao defender uma democracia baseada na participação popular.

No plano internacional, o deputado português João Oliveira destacou a necessidade de articulação entre luta institucional e mobilização social. “É possível, de fato, termos um outro mundo se os povos se mobilizarem para construí-lo”, disse.
A eurodeputada Estrella Galán também situou o momento como decisivo. “Estamos aqui 25 anos depois da celebração do Fórum Social Mundial, porque agora, mais do que nunca, temos que unir a força dos povos para demonstrar que, através das democracias, vamos frear o fascismo”, afirmou. Segundo ela, não será dado “nem um passo atrás” diante da retirada de direitos.
O ativista Thiago Ávila, coordenador internacional da Coalizão da Flotilha da Liberdade de Gaza, afirmou que a conferência ocorre em um momento decisivo da história, marcado pela disputa entre projetos de sociedade. Segundo ele, é necessário enfrentar um modelo baseado na exploração e na guerra e construir alternativas com base no poder popular e na autodeterminação dos povos.
Ávila também destacou a importância de ações diretas, como as flotilhas de solidariedade à Palestina, e defendeu a mobilização internacional contra o que classificou como violações de direitos. “A grande batalha da nossa geração chegou”, afirmou.

No mesmo sentido, o cineasta Carlos Pronzato destacou o caráter simbólico do encontro ao recuperar a memória das lutas antifascistas. Ao comentar o ambiente da conferência, afirmou que, 25 anos depois, o evento retoma o “clima de fórum”, em referência ao Fórum Social Mundial. Pronzato também relembrou o impacto das enchentes recentes na cidade. Ele disse que chegou a se emocionar ao ver a situação, mas destacou que a abertura da conferência trouxe de volta a “alegria do primeiro” fórum.
Educação e disputa de narrativas
No Brasil, o avanço da extrema direita tem impactado o campo educacional. A presidente do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), Rosana Zan, afirmou que trabalhadores da educação foram alvo de ataques. “Estar aqui nessa grande marcha antifascista é importante para fazer a hora. A hora é agora”, declarou.

O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), Amarildo Cenci, afirmou que a conferência ocorre em um contexto global marcado por guerras, avanço do imperialismo e ataques à soberania dos povos. Segundo ele, o encontro representa a retomada de uma agenda internacionalista, em diálogo com os 25 anos do Fórum Social Mundial, e defendeu a construção de um mundo “mais justo, solidário e com paz”, o que, para ele, passa pelo enfrentamento ao fascismo e às desigualdades globais.
O jornalista Breno Altman avaliou que a conferência cumpre papel estratégico na articulação política. “Ela vai unir o esforço, a luta antifascista das mais diferentes regiões”, afirmou.
América Latina e organização popular
A dimensão latino-americana apareceu com força nas falas das delegações. O ativista mexicano Fernando Tecuatl defendeu a construção de alianças duradouras entre movimentos sociais. “Esperamos que se formem muitas alianças duradouras em todos os terrenos de luta”, afirmou .

Ao analisar o México, ele destacou contradições no cenário político. “Não é exatamente um governo de esquerda, mas foi possível pelo desgaste popular contra o neoliberalismo”, disse. Para ele, o contexto exige mobilização permanente. “Vivemos tempos muito adversos. Por isso, a organização internacionalista é mais importante do que nunca.”
Da Argentina, Ingrid Urrutia reforçou a necessidade de resposta coletiva. “A situação internacional é de guerras, de crises e de ataque aos direitos e às liberdades democráticas”, afirmou. Ela defendeu “unidade na ação, unidade nas ruas, construindo mobilizações muito fortes” e destacou mobilizações recentes contra o governo de Javier Milei.

Outra militante argentina, Susana Hugo afirmou que está no Brasil em mobilização contra o avanço da direita e denunciou repressões frequentes em seu país. “Nós somos reprimidos todas as vezes na Argentina”, disse, ao citar aposentados, estudantes e trabalhadores entre os atingidos. Ela também destacou a força das mobilizações recentes, como o ato de 24 de março pelos desaparecidos da ditadura, e reforçou a continuidade da luta: “Eu me jubilei. O futuro não se jubila”.

A dirigente guatemalteca Jessica Maria Riquiak-Egnay afirmou que sua participação na conferência está ligada ao compromisso com o internacionalismo e à luta pela terra. “Na Guatemala se luta muito pela terra, mas estamos em conflito com o governo”, disse. Para ela, a resistência dos povos se baseia na organização coletiva e na construção de alternativas: “É possível construir outro mundo”.

O ativista André Frappier, de Montréal, no Quebec (Canadá), destacou a importância da conferência como espaço de articulação internacional frente ao avanço de agendas globais conservadoras. Ele também chamou atenção para a repressão a dissidentes russos, mencionando a participação em um debate sobre o tema e a necessidade de solidariedade internacional na defesa de presos políticos.
Amazônia, território e resistência indígena
A conferência também abriu espaço para conflitos territoriais no Brasil. A indígena Auricélia Arapiun destacou a importância de levar as experiências da Amazônia ao debate internacional. “Importante trazer para cá a experiência das lutas travadas na Amazônia, contra todos os ataques aos nossos territórios, às nossas vidas, aos nossos povos”, afirmou.

Ela ressaltou que, apesar de vitórias recentes, como a revogação do decreto que autorizava a concessão e privatização de hidrovias na Amazônia, os conflitos continuam. “A gente conseguiu revogar o decreto, mas não vencemos a guerra. A gente continua sob ataques, sob ameaças”, disse.
A liderança também enfatizou a dimensão coletiva da luta. “Foi muita luta espiritual também, muita ancestralidade envolvida e muito apoio popular”, declarou. Auricélia defendeu a unificação das lutas. “Quando ameaça um território, ameaça todo o território. Somente a luta unificada é capaz de mudar os rumos da nossa própria história”, afirmou.
Ao criticar decisões políticas, apontou violações de direitos. “Estão decidindo sobre as nossas vidas sem perguntar para a gente se a gente quer ou não”, disse. Para ela, os modos de vida indígenas oferecem caminhos para enfrentar a crise global: “Se o mundo não aprender com a gente, nós não vamos conseguir mudar a realidade que a gente vive hoje”.
Conflitos globais e solidariedade internacional
A dimensão geopolítica foi destacada por diversas delegações. O cônsul cubano Benigno Pérez Fernandes denunciou o bloqueio econômico. “O império norte-americano quer asfixiar o povo cubano”, afirmou . Ainda assim, reforçou: “Outro mundo tem que ser possível”.

O embaixador Ahmed Moulayali denunciou a ocupação do Saara Ocidental e buscou apoio internacional. Já o canadense André Frappier destacou a importância do debate global. “É importante que discutamos isso agora e encontremos alternativas internacionais”, afirmou.
O representante do Mali, Broulaye Bagayoko, destacou a importância da conferência como espaço de articulação global contra o fascismo e o imperialismo. “Estamos aqui para combater as políticas ditadas pela extrema direita”, disse. Segundo ele, o encontro reúne esforços internacionais para enfrentar medidas que considera “inumanas e antidesenvolvimentistas”.

Alianças e construção de estratégias
A 1ª Conferência Internacional Antifascista foi apresentada como ponto de partida para articulações permanentes. Participantes destacaram que o avanço da extrema direita exige respostas coordenadas em escala global.
A defesa de alianças duradouras, mobilização popular e integração entre diferentes lutas apareceu como eixo comum entre as falas, indicando a tentativa de reconstrução de uma agenda internacionalista.
Retomada de um ciclo histórico
O encontro também foi marcado pela recuperação da memória do Fórum Social Mundial. Ao completar 25 anos, o evento volta a influenciar debates sobre alternativas ao modelo econômico dominante.
A conferência segue com atividades e debates, buscando consolidar uma rede internacional de enfrentamento ao fascismo em um cenário de instabilidade política e social em diferentes regiões do mundo. Confira aqui a programação completa.