Porto Alegre volta a ser epicentro da luta internacional contra a extrema direita

Leia em 13 minutos
Manifestantes ocupam o centro de Porto Alegre durante marcha que abriu a Conferência Internacional Antifascista

As ruas do centro de Porto Alegre voltaram a ser tomadas por bandeiras, palavras de ordem e idiomas diversos em uma mobilização que remete à trajetória internacionalista da cidade. A capital gaúcha sedia a 1ª Conferência Internacional Antifascista em um momento simbólico: o ano em que se celebram os 25 anos do Fórum Social Mundial.

A mobilização reuniu organizações populares, movimentos sociais e delegações internacionais em defesa da democracia – Foto: Jorge Leão

A conferência foi aberta pela Marcha Antifascista, no final da tarde de quinta-feira (26), com milhares de pessoas percorrendo o centro histórico da cidade. O encontro reuniu lideranças políticas, representantes de movimentos sociais e delegações de diferentes países, articulando respostas ao avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.

Manifestantes ocuparam o centro de Porto Alegre durante a marcha de abertura da Conferência Antifascista – Foto: Jorge Leão

Para a secretária de comunicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE), Ieda Leal, a marcha expressa a continuidade das lutas sociais em escala global. “É dizer para o mundo que nós não vamos parar, que a democracia vai ser defendida e que nós precisamos restaurar a felicidade no mundo”, afirmou.

Ieda Leal destacou a importância da mobilização internacional em defesa da democracia durante a Marcha Antifascista em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

Memória política e articulação internacional

A realização do encontro em Porto Alegre dialoga com sua trajetória como espaço de articulação global. Ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra definiu o fascismo como expressão de um modelo excludente. “O fascismo é uma fase violenta do capitalismo”, afirmou, ao defender uma democracia baseada na participação popular.

Olívio Dutra destacou a importância da participação popular no enfrentamento ao fascismo – Foto: Jorge Leão

No plano internacional, o deputado português João Oliveira destacou a necessidade de articulação entre luta institucional e mobilização social. “É possível, de fato, termos um outro mundo se os povos se mobilizarem para construí-lo”, disse.

A eurodeputada Estrella Galán também situou o momento como decisivo. “Estamos aqui 25 anos depois da celebração do Fórum Social Mundial, porque agora, mais do que nunca, temos que unir a força dos povos para demonstrar que, através das democracias, vamos frear o fascismo”, afirmou. Segundo ela, não será dado “nem um passo atrás” diante da retirada de direitos.

O ativista Thiago Ávila, coordenador internacional da Coalizão da Flotilha da Liberdade de Gaza, afirmou que a conferência ocorre em um momento decisivo da história, marcado pela disputa entre projetos de sociedade. Segundo ele, é necessário enfrentar um modelo baseado na exploração e na guerra e construir alternativas com base no poder popular e na autodeterminação dos povos.

Ávila também destacou a importância de ações diretas, como as flotilhas de solidariedade à Palestina, e defendeu a mobilização internacional contra o que classificou como violações de direitos. “A grande batalha da nossa geração chegou”, afirmou.

Thiago Ávila defendeu a mobilização internacional e o fortalecimento do poder popular durante conferência em Porto Alegre – Foto: Katia Marko

No mesmo sentido, o cineasta Carlos Pronzato destacou o caráter simbólico do encontro ao recuperar a memória das lutas antifascistas. Ao comentar o ambiente da conferência, afirmou que, 25 anos depois, o evento retoma o “clima de fórum”, em referência ao Fórum Social Mundial. Pronzato também relembrou o impacto das enchentes recentes na cidade. Ele disse que chegou a se emocionar ao ver a situação, mas destacou que a abertura da conferência trouxe de volta a “alegria do primeiro” fórum.

Educação e disputa de narrativas

No Brasil, o avanço da extrema direita tem impactado o campo educacional. A presidente do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), Rosana Zan, afirmou que trabalhadores da educação foram alvo de ataques. “Estar aqui nessa grande marcha antifascista é importante para fazer a hora. A hora é agora”, declarou.

Participantes de diferentes países se somaram ao ato, reforçando a articulação global contra a extrema direita – Foto: Jorge Leão

O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), Amarildo Cenci, afirmou que a conferência ocorre em um contexto global marcado por guerras, avanço do imperialismo e ataques à soberania dos povos. Segundo ele, o encontro representa a retomada de uma agenda internacionalista, em diálogo com os 25 anos do Fórum Social Mundial, e defendeu a construção de um mundo “mais justo, solidário e com paz”, o que, para ele, passa pelo enfrentamento ao fascismo e às desigualdades globais.

O jornalista Breno Altman avaliou que a conferência cumpre papel estratégico na articulação política. “Ela vai unir o esforço, a luta antifascista das mais diferentes regiões”, afirmou.

A dimensão latino-americana apareceu com força nas falas das delegações. O ativista mexicano Fernando Tecuatl defendeu a construção de alianças duradouras entre movimentos sociais. “Esperamos que se formem muitas alianças duradouras em todos os terrenos de luta”, afirmou .

Para Fernando Tecuatl, o cenário atual exige maior articulação internacional diante dos desafios enfrentados pelos povos – Foto: Fabiana Reinholz

Ao analisar o México, ele destacou contradições no cenário político. “Não é exatamente um governo de esquerda, mas foi possível pelo desgaste popular contra o neoliberalismo”, disse. Para ele, o contexto exige mobilização permanente. “Vivemos tempos muito adversos. Por isso, a organização internacionalista é mais importante do que nunca.”

Da Argentina, Ingrid Urrutia reforçou a necessidade de resposta coletiva. “A situação internacional é de guerras, de crises e de ataque aos direitos e às liberdades democráticas”, afirmou. Ela defendeu “unidade na ação, unidade nas ruas, construindo mobilizações muito fortes” e destacou mobilizações recentes contra o governo de Javier Milei.

Ingrid Urrutia defendeu a unidade nas ruas como resposta à crise social e política durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

Outra militante argentina, Susana Hugo afirmou que está no Brasil em mobilização contra o avanço da direita e denunciou repressões frequentes em seu país. “Nós somos reprimidos todas as vezes na Argentina”, disse, ao citar aposentados, estudantes e trabalhadores entre os atingidos. Ela também destacou a força das mobilizações recentes, como o ato de 24 de março pelos desaparecidos da ditadura, e reforçou a continuidade da luta: “Eu me jubilei. O futuro não se jubila”.

Susana Hugo participou da mobilização em Porto Alegre e denunciou a repressão a movimentos sociais na Argentina – Foto: Fabiana Reinholz

A dirigente guatemalteca Jessica Maria Riquiak-Egnay afirmou que sua participação na conferência está ligada ao compromisso com o internacionalismo e à luta pela terra. “Na Guatemala se luta muito pela terra, mas estamos em conflito com o governo”, disse. Para ela, a resistência dos povos se baseia na organização coletiva e na construção de alternativas: “É possível construir outro mundo”.

Jessica Maria Riquiak-Egnay destacou a luta pela terra e o internacionalismo durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

O ativista André Frappier, de Montréal, no Quebec (Canadá), destacou a importância da conferência como espaço de articulação internacional frente ao avanço de agendas globais conservadoras. Ele também chamou atenção para a repressão a dissidentes russos, mencionando a participação em um debate sobre o tema e a necessidade de solidariedade internacional na defesa de presos políticos.

Amazônia, território e resistência indígena

A conferência também abriu espaço para conflitos territoriais no Brasil. A indígena Auricélia Arapiun destacou a importância de levar as experiências da Amazônia ao debate internacional. “Importante trazer para cá a experiência das lutas travadas na Amazônia, contra todos os ataques aos nossos territórios, às nossas vidas, aos nossos povos”, afirmou.

Auricélia Arapiun levou ao debate internacional as lutas dos povos indígenas em defesa dos territórios – Foto: Katia Marko

Ela ressaltou que, apesar de vitórias recentes, como a revogação do decreto que autorizava a concessão e privatização de hidrovias na Amazônia, os conflitos continuam. “A gente conseguiu revogar o decreto, mas não vencemos a guerra. A gente continua sob ataques, sob ameaças”, disse.

A liderança também enfatizou a dimensão coletiva da luta. “Foi muita luta espiritual também, muita ancestralidade envolvida e muito apoio popular”, declarou. Auricélia defendeu a unificação das lutas. “Quando ameaça um território, ameaça todo o território. Somente a luta unificada é capaz de mudar os rumos da nossa própria história”, afirmou.

Ao criticar decisões políticas, apontou violações de direitos. “Estão decidindo sobre as nossas vidas sem perguntar para a gente se a gente quer ou não”, disse. Para ela, os modos de vida indígenas oferecem caminhos para enfrentar a crise global: “Se o mundo não aprender com a gente, nós não vamos conseguir mudar a realidade que a gente vive hoje”.

Conflitos globais e solidariedade internacional

A dimensão geopolítica foi destacada por diversas delegações. O cônsul cubano Benigno Pérez Fernandes denunciou o bloqueio econômico. “O império norte-americano quer asfixiar o povo cubano”, afirmou . Ainda assim, reforçou: “Outro mundo tem que ser possível”.

Benigno Pérez Fernandes denunciou o bloqueio econômico contra Cuba durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

O embaixador Ahmed Moulayali denunciou a ocupação do Saara Ocidental e buscou apoio internacional. Já o canadense André Frappier destacou a importância do debate global. “É importante que discutamos isso agora e encontremos alternativas internacionais”, afirmou.

O representante do Mali, Broulaye Bagayoko, destacou a importância da conferência como espaço de articulação global contra o fascismo e o imperialismo. “Estamos aqui para combater as políticas ditadas pela extrema direita”, disse. Segundo ele, o encontro reúne esforços internacionais para enfrentar medidas que considera “inumanas e antidesenvolvimentistas”.

Broulaye Bagayoko ressaltou a importância da articulação internacional no enfrentamento ao fascismo durante conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

Alianças e construção de estratégias

A 1ª Conferência Internacional Antifascista foi apresentada como ponto de partida para articulações permanentes. Participantes destacaram que o avanço da extrema direita exige respostas coordenadas em escala global.

A defesa de alianças duradouras, mobilização popular e integração entre diferentes lutas apareceu como eixo comum entre as falas, indicando a tentativa de reconstrução de uma agenda internacionalista.

Retomada de um ciclo histórico

O encontro também foi marcado pela recuperação da memória do Fórum Social Mundial. Ao completar 25 anos, o evento volta a influenciar debates sobre alternativas ao modelo econômico dominante.

A conferência segue com atividades e debates, buscando consolidar uma rede internacional de enfrentamento ao fascismo em um cenário de instabilidade política e social em diferentes regiões do mundo. Confira aqui a programação completa.

Compartilhe esta notícia