Estudantes de universidades estaduais enfrentam provocações, resistem à PM e são recebidos por Tarcísio

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O movimento ganhou corpo de forma acelerada nas últimas semanas, pressionando o governo estadual após fortes processos de greve avançarem no interior e na capital

Milhares de estudantes, professores e trabalhadores das universidades estaduais paulistas USP, Unicamp e Unesp realizaram uma mobilização nesta quarta-feira (20) na capital paulista.

A marcha, que teve concentração inicial às 14h no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, unificou as pautas das instituições de ensino superior em um forte clamor contra o desfinanciamento, o sucateamento da estrutura física e os projetos de privatização encabeçados pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O ato marchou por cerca de 3 horas, do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes, na zona sul da capital. Antes de chegar na entrada da sede do governo estadual, uma barreira da PM impediu o prosseguimento da marcha. Até que, após cerca de uma hora de negociações com intermédio da Polícia Militar, Tarcísio aceitou receber uma comissão dos estudantes grevistas, que entraram para se reunir pouco depois das 20h.

O movimento ganhou corpo de forma acelerada nas últimas semanas, pressionando o governo estadual após fortes processos de greve avançarem no interior e na capital.

De acordo com dados divulgados pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp, a greve estudantil já contava com a adesão massiva de pelo menos 65 cursos da instituição até o início desta semana, fruto de intensas assembleias que uniram discentes, docentes e funcionários contra as perdas orçamentárias.

A marcha, que teve concentração inicial às 14h no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, unificou as pautas das instituições de ensino superior | Kaique Dalapola/Brasil de Fato

Os manifestantes reivindicam a ampliação imediata dos repasses do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) destinados às universidades, o reajuste e expansão das bolsas de permanência estudantil — como auxílio-moradia e alimentação —, a contratação urgente de professores por meio de concursos públicos e a melhoria das estruturas dos campi periféricos e do interior.

Nacionalmente, o ato também ecoou a pauta das universidades federais em greve, protestando contra as restrições fiscais e o arcabouço fiscal que limita os investimentos sociais.

Confusão com bolsonarista

Pouco antes do início da marcha, por volta das 16h, um episódio de provocação política tensionou o ambiente no Largo da Batata. O ex-deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia compareceu ao local da concentração com o objetivo de filmar e hostilizar os manifestantes que se organizavam para a caminhada.

Ao perceberem a presença do ex-parlamentar, conhecido por sua atuação ligada à extrema direita, um grupo de estudantes reagiu verbalmente, iniciando um bate-boca. Seguranças privados que acompanhavam o ex-deputado tentaram empurrar os estudantes, que reagiram, gerando um princípio de tumulto generalizado.

Apesar da rápida confusão e do empurra-empurra entre os manifestantes e a equipe de Douglas Garcia, o episódio foi isolado e não chegou a interromper ou atrasar o cronograma da manifestação.

O grupo que acompanhava o ex-deputado acabou se retirando do perímetro e o comando de greve deu sequência às intervenções políticas planejadas no carro de som.

Estudantes relatam colapso

As intervenções de lideranças estudantis e parlamentares no carro de som detalharam o cotidiano de precarização enfrentado nas universidades de São Paulo. A deputada estadual Paula Nunes (Bancada Feminista – Psol) destacou a dimensão racial e de classe que envolve o sucateamento das universidades paulistas.

“Os poderosos do estado de São Paulo nunca aceitaram as cotas raciais. Nunca aceitaram que a universidade do estado de São Paulo tivesse a cara do povo. E é por isso que eles acham que a gente, que os nossos filhos, que o nosso povo, pode comer comida com larva no bandejão, pode ter moradia estudantil caindo na cabeça da nossa juventude”, declarou.

A parlamentar completou: “Mas se eles acham que a gente vai parar por aí, eles estão muito enganados. A gente vai arrancar deles sim o aumento da bolsa de permanência estudantil. Assim como a gente vai arrancar na marra as cotas trans na universidade”.

A infraestrutura nos campi foi um dos pontos mais denunciados na marcha. Danny Oliveira, diretora do DCE Livre da USP e militante do Movimento Correnteza e do Coletivo Juntos, trouxe relatou condições de sobrevivência estudantil.

“Em 2026, a gente volta a ver as universidades de São Paulo com falta d’água, com os estudantes passando sede na moradia, com as aulas sendo canceladas porque não tinha água para beber, com os bandejões atrasando a sua abertura porque não tinha como produzir alimento para os estudantes. É por isso que a gente está construindo essa unidade”, afirmou Danny.

A dirigente estudantil também contextualizou a realidade de violência que cerca a juventude periférica ao sair do ambiente acadêmico: “Somos nós que saímos do portão da universidade para voltar para as nossas quebradas e nos deparamos com essa polícia racista, assassina, nos enquadrando antes da gente virar a esquina do nosso bairro. É a gente que sai da faculdade e sofre o feminicídio. Esse ato é em memória à Bruna, estudante da USP que foi assassinada voltando para casa”.

Antes de chegar na entrada da sede do governo estadual, uma barreira da PM impediu o prosseguimento da marcha | Kaique Dalapola/Brasil de Fato

Para Clara Araújo, também diretora do DCE Livre da USP, o movimento estudantil unificado cumpre o papel de linha de frente no enfrentamento ao governo estadual. “Esse ato é um basta! Um basta nas privatizações, na repressão policial e na precarização que o governo do Tarcísio representa para a juventude e para a classe trabalhadora que nesse momento se levanta contra a política da extrema direita”, disse.

“Se eles acham que a resposta é a repressão policial, é privatização do nosso metrô, da saúde e de todos os nossos serviços, a nossa resposta é derrotar o Tarcísio de Freitas nas ruas”, afirmou.

De acordo com o deputado estadual Maurici (PT), que também esteve no ato, a união de forças nas ruas recoloca a resistência popular no centro do debate político paulista. “É um governo canalha, que está vendendo o estado de São Paulo, tudo aquilo que gerações e gerações de estudantes e trabalhadores, de homens, mulheres, brancos, negros, construíram e que agora está sendo repassado a preço de banana para grandes grupos econômicos”, afirmou o parlamentar.

A necessidade de expandir a mobilização para além dos muros universitários foi defendida pela presidente estadual da Unidade Popular (UP), Vivian Mendes, em entrevista concedida ao Brasil de Fato. “Hoje a manifestação está vanguardeada pela juventude, que luta contra o fascismo, e isso é muito importante”, disse.

A deputada estadual Mônica Seixas (Bancada Ativista – Psol) vinculou o sucateamento promovido pela gestão paulista ao preconceito institucional contra o avanço das políticas de inclusão. “Nós estamos falando do contexto da política de cotas, da nossa história, para ver quem a gente é enquanto estudante agora. E foi só o negro chegar na universidade que eles querem ver verme no bandejão, que deixam a moradia mofar, que o teto da biblioteca cai na cabeça dos estudantes”, discursou Mônica.

“Enquanto o Tarcísio desfinancia a universidade pública, ele transfere o dinheiro público para os barões do agronegócio. É o maior desvio de recursos públicos da história do estado de São Paulo. Enquanto isso, ninguém discute o direito à educação”, afirmou a deputada.

A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, também destacou o espírito de luta da nova geração de ativistas. “Nós vamos marchar até o Palácio para dizer para Tarcísio de Freitas que aqui está a geração que não teve tempo para ter medo! Contra o projeto de violência, de autoritarismo e de sucateamento da educação, nós trazemos para as ruas de São Paulo um recado de esperança”.

Abordagens nas estradas

Antes dos estudantes do interior chegarem na capital, a tensão tomou conta das rodovias estaduais. O movimento de estudantes em greve denunciou uma operação coordenada e deliberada da Polícia Militar Rodoviária para reter, revistar e atrasar os ônibus fretados que transportavam as caravanas rumo ao ato unificado.

De acordo com relatos fornecidos pelo diretor do DCE da Unesp, Guilherme Nogueira, a entidade contratou e organizou um total de 17 ônibus para trazer caravanas de estudantes de diferentes regiões do interior do estado. Desse total, 12 ônibus registraram abordagens policiais ao longo do percurso.

O caso mais agudo e detalhado pela liderança estudantil envolveu os veículos que transportavam estudantes vindo dos campi de Bauru e de Rio Claro. Os veículos foram interceptados por viaturas da Polícia Rodoviária na Rodovia Presidente Castello Branco, na altura do município de Pardinho (SP), onde policiais fortemente armados ordenaram o desembarque de todos os passageiros para fiscalizações e revistas detalhadas.

Nacionalmente, o ato também ecoou a pauta das universidades federais em greve, protestando contra as restrições fiscais e o arcabouço fiscal que limita os investimentos sociais | Kaique Dalapola/Brasil de Fato

“O dia de hoje é muito importante, a gente conseguiu organizar as entidades estaduais ao lado dos estudantes, colocando que o Tarcísio de Freitas é inimigo da educação pública”, pontuou Nogueira.

A presidenta estadual da UP também criticou a ação repressiva nas estradas federais e estaduais. “Hoje eles começaram o dia já escancarando a política de Tarcísio para o povo trabalhador, que foi buscar impedir que os ônibus dos estudantes, e os ônibus que vêm com o pessoal de movimentos sociais dos interiores, cheguem até a manifestação. Isso escancara aquilo que nós já estamos dizendo: Tarcísio é um fascista e ele quer impedir a mobilização popular”, disse.

Outro lado

Ó Brasil de Fato questionou formalmente a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) e o Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo a respeito dos motivos técnicos, legais e operacionais que embasaram as interceptações e revistas contra ônibus de estudantes. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto.

Por outro lado, o posicionamento oficial das gestões das universidades estaduais — emitido no dia 18 de maio, quando o avanço das greves na Unicamp e na Unesp gerou os primeiros marcos de pressão sobre o Palácio dos Bandeirantes — expõe visões distintas sobre o conflito.

Na ocasião, a reitoria da Unicamp, chefiada por Antonio José de Almeida Meirelles, declarou estar mantendo canais abertos de negociação com os estudantes e com as entidades representativas. A gestão pontuou estar ciente das demandas locais de infraestrutura nos campi descentralizados, mas ponderou que a expansão de programas e a contratação de pessoal dependem diretamente da estabilidade na arrecadação das quotas-partes do ICMS estadual e das negociações conjuntas mediadas pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp).

Já a reitoria da Unesp manifestou preocupação com a paralisia do calendário acadêmico decorrente dos piquetes e paralisações no interior. A administração afirmou reconhecer o direito à livre manifestação e à organização sindical de estudantes e servidores, mas reforçou o apelo para que as pautas sejam canalizadas por meio das instâncias internas de diálogo, de modo a evitar prejuízos crônicos ao ano letivo e ao funcionamento administrativo das unidades.

A assessoria da USP limitou-se a indicar que seus posicionamentos estão expressos em notas oficiais publicadas em seu portal e que “não haverá nenhuma outra manifestação”.

Em comunicados recentes, a universidade defendeu a reintegração de posse do prédio da reitoria para “garantir o livre acesso de pessoas ao edifício” e destacou a instituição da Comissão de Moderação e Diálogo Institucional para tratar da pauta de reivindicações e da “normalização da vida acadêmica”.


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