Em sessão histórica do COPHAM, manifestação que atravessa gerações ganha proteção oficial do Estado — vitória celebrada como marco da identidade amazônica e símbolo do compromisso de Maués com sua própria alma cultural
Havia emoção no ar na tarde desta quinta-feira (28), em Manaus. Quando os membros do Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas (COPHAM) levantaram suas vozes na 48ª Sessão Plenária Ordinária para oficializar o que guardiões de uma herança secular já sabiam há muito tempo, algo mudou para sempre no mapa cultural do Estado: o Gambá de Maués é, agora e para sempre, Patrimônio Cultural do Amazonas.
O anúncio não foi apenas burocrático. Foi um ato de justiça histórica.
Em torno da decisão, estavam os rostos e as mãos que fizeram esse momento possível – homens e mulheres que carregam nos corpos a memória viva de uma tradição transmitida de geração em geração, quase sempre nos bastidores, longe dos holofotes, longe dos palácios e dos gabinetes. Humbertina Matos dos Santos, João Souza dos Santos, João Renei dos Santos Tavares, Altair Gabriel dos Santos, Raimundo Azevedo Barbosa, Julia de Araújo, Ismael Rodrigues Pinheiro Filho e José Carlos Cardoso estavam presentes. Eles são os guardiões. E na tarde desta quinta, o Amazonas finalmente os reconheceu.
Uma conquista que nasce do povo – O reconhecimento não brotou do acaso nem desceu por decreto. Foi construído tijolo por tijolo ao longo de anos de pesquisa, documentação, resistência e mobilização coletiva. O Grupo Puxirum, coordenado pela professora e pesquisadora Leina Tavares, foi peça central nessa engrenagem – responsável por transformar memória oral em registro, e registro em argumento irrefutável perante o Estado.
A Prefeitura de Maués, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur), liderada pela secretária Ocilene Medeiros, esteve ao lado do processo em cada etapa. A superintendente do IPHAN no Amazonas, Beatriz Calheiros de Abreu Evanovick, também foi decisiva para pavimentar o caminho institucional que levou o Gambá até este momento.
“Essa conquista pertence a todos que ajudaram a preservar o Gambá. É um momento de orgulho para Maués e para todo o Amazonas, porque estamos garantindo que essa manifestação cultural continue sendo conhecida, valorizada e transmitida às futuras gerações”, declarou Ocilene Medeiros, com a voz carregada de significado.

Para a prefeita Macelly Veras, que fez da valorização cultural uma das marcas de sua gestão, o reconhecimento extrapola o campo simbólico e toca o que há de mais essencial em um povo.
“Hoje celebramos uma conquista histórica para Maués. O Gambá faz parte da nossa essência, da nossa história e da nossa identidade. Esse reconhecimento honra todos aqueles que mantiveram viva essa tradição ao longo dos anos e fortalece nosso compromisso de preservar e valorizar a cultura do nosso povo.”
Não foram palavras de protocolo. Foram palavras de quem entende que cultura não é ornamento – é fundação.
Com o título oficial, o Gambá de Maués deixa de depender exclusivamente da dedicação de seus guardiões para sobreviver. Passa a contar com o amparo do Estado, com políticas públicas de preservação, com visibilidade institucional e com um lugar garantido na narrativa cultural do Amazonas.
Mais do que isso: torna-se um espelho no qual as futuras gerações de Maués poderão se olhar e reconhecer a si mesmas.
Em tempos em que tradições se apagam com a velocidade de um scroll, o Amazonas escolheu guardar. Escolheu lembrar. Escolheu que o Gambá – com seu ritmo, sua história, sua gente – não será esquecido.
Essa é a notícia. E ela é histórica.
+++++++
Por Marcelo Guerra / Jornalista Profissional MTB 482/AM