A cerveja e o refrigerante circulam no isopor cheio de gelo, alimentos são vendidos nas laterais, enquanto a multidão atravessa a rua atrás do trio elétrico. No Carnaval, Brasil afora, a festa popular depende de uma engrenagem silenciosa: os vendedores ambulantes que garantem comida e bebida ao público. Para muitos deles, o período é a principal chance de reforçar a renda do ano, mas a época também tem seus riscos para um trabalho informal.
Sem carteira assinada, sem férias, sem auxílio-doença e, em grande parte, sem autorização formal para trabalhar, ambulantes investem o que têm, e muitas vezes até o que não têm, na expectativa de vender bem. Se a fiscalização apreende a mercadoria, o prejuízo pode significar semanas sem capital para recomeçar.
Pode significar também mais dificuldades financeiras para uma família que tira das vendas na rua o sustento. Vender nas ruas muitas vezes acaba sendo a chance de superar um momento de desemprego, falência, doença ou outra dificuldade. O trabalho ambulante, para a maioria, não é escolha idealizada, mas saída possível.
Da falência à rua
Terezinha Ortiz e o marido tinham um comércio na zona norte de Porto Alegre. A pandemia da covid-19 desestruturou o negócio. “Começamos a vender na rua na metade da covid em diante, que nós tínhamos uma empresa e a gente faliu devido a pandemia”, relata. A recuperação não veio. As enchentes no Rio Grande do Sul agravaram a situação econômica geral e reduziram o consumo. “A população em si começou a não gastar mais. E a gente foi indo aos poucos, até que a gente quebrou.”
Sem alternativa formal de emprego, migraram para a venda ambulante de bebidas, drinks e kits em blocos e eventos em Porto Alegre. O primeiro Carnaval de rua deste ano em que trabalharam foi no Bloco das Pretas, que abriu o circuito de blocos da Capital na sexta-feira do feriadão. “Aqui por enquanto é o primeiro e pretendemos trabalhar nos outros também.”
Entrar na informalidade foi uma estratégia de sobrevivência. “Tudo que a gente mais quer é ter um cadastro para trabalhar, nem que a gente tenha que pagar uma taxa.” Para Ortiz, contribuir com imposto não é empecilho. “Mas deixa a gente trabalhar.”
Sem férias ou descanso remunerado, a lógica é direta: parar significa perder renda. “Tu não tem férias, tu não tem folga, tu não tem dia de feriado, é tudo assim, tu tem que tá trabalhando enquanto as outras pessoas tão se divertindo.” A doença é um risco permanente. “Então tu tem que rezar para não ficar doente”, afirma.
Rede de ajuda e improviso para trabalhar
A trajetória de Patrícia da Silva Vasques, conhecida como Patty, e do marido, Rodrigo Digão, também começou com desemprego e necessidade. Ele era açougueiro. Ela fazia faxinas. Quando ele ficou sem trabalho, surgiu a possibilidade de vender no entorno do estádio do Internacional, em um dia de jogo. “Vocês querem ir trabalhar no Beira Rio?”, perguntou o cunhado, que já trabalhava como vendedor ambulante.
Patty e Digão aceitaram. Ela trabalhou vendendo bebidas enquanto o marido cuidava do churrasquinho. Ao fim do dia, tiveram um lucro de R$ 150. “Eu lembro que eu fiquei muito, muito, muito feliz”, recorda. Com o dinheiro, pagou a conta de internet atrasada.

O início contou com a ajuda de redes informais de solidariedade. O carrinho foi comprado fiado de um vizinho. As caixas de isopor, emprestadas e depois adquiridas. As bebidas, conseguiram a prazo no mercado do bairro. “Trabalhamos duas vezes e conseguimos pagar o carrinho e conseguimos pagar a caixa.” A cada evento, reinvestiam o lucro na mercadoria seguinte.
Hoje, o casal tem quatro carrinhos, oito caixas térmicas e uma clientela fiel. Criaram marca própria, a RP Churraquinhos e Bebidas, oferecem cartão fidelidade e mantêm CNPJ ativo. Mesmo assim, dependem da autorização eventual para trabalhar em eventos de rua. Mas, na maioria das vezes, não há nem como conseguir autorização, o que aumenta a sensação de risco. “Tem alguns que deixam a gente trabalhar numa boa e tem alguns que a fiscalização vem e diz que não pode trabalhar”, comenta Patty.
Ela relata um episódio na virada do ano no Parque Harmonia, no centro da capital gaúcha, quando ambulantes tiveram carrinhos e mercadorias apreendidos. “A fiscalização veio já com bastante truculência assim, já agredindo alguns ambulantes, pegaram de uma família inteira quatro carrinhos, seis caixas de isopor, jogaram spray de pimenta na cara da colega”, recorda. A trabalhadora autuada estava com o filho de quatro anos, que acompanhava os pais na noite de Réveillon. “Foi bem triste, bem triste mesmo.”
Para Patty, a apreensão não representa apenas a perda do dia. “Tem toda a renda investida da própria pessoa ali.” Segundo ela, cada caixa de bebida, cada pacote de carvão, cada quilo de carne comprado para os espetinhos é fruto de capital próprio, muitas vezes adquirido com sacrifício e planejamento apertado.
Entre a renda e o risco
Analu Domingues também chegou ao comércio ambulante antes da pandemia, há cerca de quatro anos, como alternativa de sustento. Vende churrasquinho nos blocos de Carnaval e em jogos de futebol. Ela trabalha sozinha, às vezes com ajuda da família. É a única fonte de aluguel da casa.

“A gente vai indo, devagar, quando dá, né? Às vezes passa perrengue.” Direitos trabalhistas são uma realidade distante, porque se adoece, não recebe nada. “Quando tem um problema a gente tá ferrada mesmo. A gente fica ferrado, não tem direito a nada.”
Domingues conta que o Carnaval é “uma época boa, vende bem”, mas a insegurança é constante. “Várias vezes, eles trancam às vezes a gente de trabalhar”, afirma sobre a fiscalização. Embora nunca tenha tido mercadorias apreendidas, reconhece que o prejuízo seria devastador. “Daí como é que eu vou começar de novo? Da onde eu vou arrumar pra comprar os produtos do outro dia?”
Cadastro e ausência de política pública
Cidades como Florianópolis, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte abriram cadastros para vendedores ambulantes no Carnaval 2026. Em Porto Alegre, não há um modelo público consolidado de organização. Segundo Juliano Fripp, presidente regional da Associação Feira Rua da Praia (Asferap) e diretor da União Nacional dos Camelôs, Ambulantes e Feirantes do Brasil (Unicab), “não existe nenhuma iniciativa feita pelo poder público para organizar os camelôs no Carnaval da Capital”.
Ele confirma que a maioria trabalha por conta própria, “arriscando ter a mercadoria apreendida pela fiscalização”. Em alguns eventos, empresas organizadoras cobram taxas para permitir a venda em áreas delimitadas. “Mas não existe um cadastro formal da prefeitura para trabalhar no Carnaval”, reforça.
Na prática, a diferença entre estar vinculado a um evento e trabalhar de forma independente define o nível de exposição. Quem não está atrelado a uma organização pode ser retirado a qualquer momento e ter produtos recolhidos. Para Fripp, o governo estadual poderia intervir “para tentar ajeitar a situação”.
Ele defende políticas de cadastramento e regulamentação permanentes, exemplificando com os vendedores de rua ligados à Asferap. “A gente já tem muitos camelôs cadastrados no nosso entorno, onde faz eventos, e também em outras atividades, como a Expointer, além de feiras em cidades como Santa Maria e Rio Pardo.”
Perfil social e exclusão estrutural
O comércio ambulante urbano no Brasil é historicamente exercido por uma maioria de trabalhadores negros e periféricos, empurrados para a informalidade por desemprego estrutural e falta de oportunidades formais. O percentual de pretos ou pardos no mercado informal de trabalho no Brasil chegou a 47,4% em 2019, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em casos extremos, a precarização assume contornos de exploração. Durante o Carnaval de Salvador de 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego resgatou 303 ambulantes submetidos a condições análogas à escravidão, incluindo jornadas exaustivas e retenção de documentos.
Nesse caso, os vendedores ambulantes eram contratados por uma multinacional para vender bebidas e os auditores-fiscais do Trabalho realizaram autuações para garantir a formalização do vínculo empregatício e o pagamento dos direitos trabalhistas. O episódio evidencia como a informalidade pode se converter em exploração quando não há fiscalização voltada à proteção do trabalhador.

Precarização e adoecimento
A ausência de direitos atravessa todas as histórias ouvidas pela reportagem neste Carnaval. Patty e o marido já trabalharam com pneumonia, porque “se não trabalha não recebe.” Em outra ocasião, ela foi para um jogo com a perna lesionada para não perder a mercadoria já comprada. “A gente vai perder um evento bom”, disse ao marido antes de decidir não procurar atendimento médico para trabalhar, mesmo com dor.
Durante a pandemia e enchentes, o casal dependeu de ajuda de familiares e amigos. “É a gente pela gente”, afirma Patty. A mesma lógica aparece no relato de Terezinha Ortiz, que já viu colegas terem mercadorias recolhidas. “São pessoas que realmente precisavam”, diz, associando a insistência em vender à necessidade de sustento.
Depois da folia, o pedido de valorização
Quando o último bloco de Carnaval se dispersa, a renda volta a depender de feiras, jogos, shows esporádicos e vendas em sinaleiras. O inverno rigoroso do Sul do país reduz o movimento. “Nosso maior fluxo de caixa é no verão”, explica Patty, lembrando dos cancelamentos de eventos devido à condição climática.
Antônio Mota, que atua há 15 anos com bebidas em blocos e feiras de Porto Alegre, resume a incerteza: “Dá para prever os ganhos relativos ao capital investido em produtos, porém nas atividades de vendas podem ocorrer imprevistos e prejudicar os ganhos”. Sem conhecer sindicato ou contar com proteção formal, a atividade pode ser interrompida por doença ou fiscalização.
Mota e a esposa, Josi, que o acompanha no trabalho, já estavam presentes no primeiro bloco de Carnaval que saiu neste ano em Porto Alegre, ainda em janeiro, o Bloco da Laje. Ele avalia que seria positivo existir um sindicato ou entidade que os representasse. “O que falta são mudanças estruturais, legais e sociais, regularização e valorização da atividade dariam para o ambulante dignidade de trabalho”, comenta.
Para Patty, o principal pedido é o reconhecimento como trabalhadora. “Acho que precisaria ser mais enxergado como seres humanos, os ambulantes.” Não somente pelos governantes, mas também a população. “Tem pessoas ainda que enxergam o ambulante como um estorvo. ‘Ah, porque tá com uma caixa no meio do caminho’. Não enxergam que por trás de um ambulante, de repente, tem um familiar em casa doente que tá esperando aquele dinheiro para comprar um remédio, uma mãe solo que tá ali trabalhando para levar o sustento para o seu filho em casa.”

Projeto no Congresso
Enquanto nas ruas a sobrevivência depende da própria resistência, em Brasília a discussão avança em ritmo mais lento. No Congresso Nacional, um projeto de lei aprovado em dezembro de 2025, em comissão na Câmara dos Deputados, propõe regras nacionais para o comércio ambulante, estabelecendo direitos, deveres e limites para a fiscalização. A proposta segue em análise.
O principal objetivo é tornar o combate a produtos ilícitos e não a punição do trabalhador como foco da fiscalização, evitando a apreensão imediata de mercadorias de quem atua de boa-fé. Dados do parecer do relator, deputado Gilson Marques (Novo-SC), informam que o comércio ambulante é exercido por mais de meio milhão de brasileiros, sendo uma alternativa de renda para quem tem dificuldade de acessar o mercado formal.