A Fabulosa Máquina do Tempoda documentarista e diretora Eliza Capai, será exibido no Festival de Berlim, que acontece entre 12 e 22 de fevereiro. “É uma emoção muito grande, sonhava com essa estreia e ver as pessoas mergulhadas é uma grande emoção”, declarou Capai ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
“Eu acho que estamos vivendo um momento muito especial no nosso cinema. Antes, muitas pessoas ainda tinham preconceito sobre o cinema brasileiro e sua qualidade, acredito que devido à falta de editais e de incentivos para o setor. A projeção nesses festivais internacionais é muito importante para dar destaque ao Brasil”, aponta.
Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) são obras brasileiras que ganharam espaço e levaram as estatuetas em premiações renomadas como o Oscar e o Globo de Ouro. “Muitas vezes a gente precisa do olhar de fora para conseguir ver as nossas belezas e, com isso percebemos que a gente começa também a viver um novo momento da nossa história em que as pessoas têm mais curiosidade pelo nosso cinema”, acrescenta.
Com poucos recursos e feito de forma independente, o filme fala sobre a maneira como as crianças veem seus pais e como elas olham para o futuro. Meninas brincam no árido interior brasileiro, equilibrando-se entre o passado difícil de suas mães e os sonhos fantásticos que inventam para o futuro.
“Minha história começa com Guaribas (PI), que é essa cidade onde o filme se passa. Em 2013 eu li um livro chamado Vozes do Bolsa Famíliaque falava sobre como começava um novo debate de gênero nos rincões mais empobrecidos do Brasil a partir da data da entrega do benefício, que privilegia as mulheres”, contextualiza.
Capai realizou uma investigação para a Agência Pública na cidade piloto do Bolsa Família. Lá, a diretora produziu dois curtas chamados Severinas e Não Devagar de Prazer dos Tempos. “Nesse momento eu noto como as mulheres diziam ‘eu vivi a escravidão’, que sentiam ter vivido essa escravidão, sem comida, sem roupa, sem chinelo, sem o básico do que a Constituição brasileira garante”, relembra.
“Então eu volto em 2021 para reencontrar aquelas famílias e conheço as novas crianças. E eu me senti numa máquina do tempo. E aquelas novas crianças estudavam e eram TikTokers, estavam ainda inseridas nesse outro mundo”, aponta. “Através da Mana Cine com a produção com Globofilmes e a Globonews, voltamos em 2024 com uma oficina de vídeo para as meninas”, acrescenta.
Para a documentarista, a ideia era falar desses temas, que são muito duros – a miséria estrutural, o machismo estrutural – e do início do rompimento desses processos, “mas eu não queria que fosse com o meu olhar, como eu já havia feito anteriormente”.
“Eu buscava o frescor do que isso significa para essas crianças, para quem começa de fato a ter uma vida diferente. E aí o filme, a partir da oficina de vídeo, a gente acompanha essas meninas na casa delas, na escola, nas brincadeiras e nas viagens, né? Então a gente brinca de cinema”, explica como surgiu a proposta.
O filme compete pelo Urso de Cristal, na Mostra Kplus, do Festival de Berlim, que destaca produções que abordem narrativas criativas sobre crescimento e amadurecimento, levando para as telonas o protagonismo jovem.
Para ouvir e assistir
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